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2012/06/25

A Verdade dos Números


            Há dias, numa das minhas frequentes viagens a Fresno que fica a 45 minutos de minha casa), para gravar o programa de televisão que modero, os Portugueses no Vale (a celebrar o seu 23o aniversário) vi um autocolante, de certeza num carro de um professor de matemática, que dizia: a matemática é radical.  Também é cliché dizer-se que: a verdade está nos números.  E é de números que quero refletir, particularmente os números que falam de quantos somos no estado da Califórnia, um dos mais emblemáticos da união americana e onde a nossa presença portuguesa data o século XIX. 

            Um dos nossos números favoritos, é, indubitavelmente, o milhão.  Todo o mundo quer ser milionário.  E nós portugueses e luso-descendentes, não fugimos à regra.  Quando se pergunta por aí, quantos somos na Califórnia, é quase unanime que somos: um milhão.  E em cada estado da na união americana queremos ser um milhão, o que nos dava, nos Estados Unidos pelo menos uns cinco a seis milhões de portugueses e luso-descendentes.  Mas a realidade é diferente.  Se nos faz bem ao nosso ego coletivo sermos um milhão, que fiquemos com ele.  Porém, não são esses os números oficiais.  Esses sim é que contam.  São esses números que as entidades americanas se baseiam para distribuir recursos, dar apoios, reestruturar serviços, etc.  Daí achar boa ideia olharmos para os números e depois, claro que voltaremos ao nosso milhão.

            Permitam-me prefaciar esta olhadela pelos números estabelecendo a premissa de que é obvio que durante o recenseamento, o Census 2010, houve alguns luso descendentes que não se identificaram como tal, ou por não acharem importante, ou por não querem.  O que também se poderá acrescentar: se não se querem identificar como tal, serão?  É uma questão pertinente e discutível.  

            Segundo o relatório do governo americano somos, nos Estados Unidos, 1,405,900 portugueses e luso-descendentes, ou seja, representamos cerca de 4,7 da população do país.  Somos 374,875 no estado da Califórnia, seguidos por Massachusetts que tem 311,767.  E até estamos, como se sabe, no Hawaii, onde somos um pouco mais de 100 mil luso-descendentes.     

Das pessoas que se identificaram como sendo de origem portuguesa na Califórnia, 49,3% são homens e 50,7% são mulheres, daí que não faça sentido que as nossas instituições ainda estejam controlados pelos machos, com pouquíssimos cargos de importância a serem ocupados pelas senhoras.   A idade média das pessoas de origem portuguesa na Califórnia é 39,1 anos de idade, o que nos diz aquilo já há muito sabemos: somos uma comunidade envelhecida.  Quando há anos ia a eventos culturais da nossa comunidade (o que faço com regularidade há três décadas) e era o mais novo, achava piada.  Agora com 53 anos feitos e por vezes sou dos mais novos, já não tem piada nenhuma. 

            No campo da educação 12,1% das pessoas que se identificaram como portuguesas, têm apenas a instrução primária; 27,3 possuem o ensino secundário; 37% têm alguma instrução além do ensino secundário, desde curso técnico a algumas unidades universitárias; 16,1% possuem uma licenciatura (Bachelor's degree) e 6,8% possui mestrado ou doutoramento.  Daí que 87% da nossa comunidade concluiu o ensino secundário, ou seja um número muito acima da média dos hispânicos, por exemplo, e 22,9% tem cursos universitários, algo que, felizmente, tem mudado muito nos últimos anos. 

            Outros números interessantes e importantes para refletirmos quem somos neste grande estado norte-americano, referem-se por exemplo a quantos somos os que nascemos em Portugal e os que nasceram nos Estados Unidos e ainda se consideram portugueses.  Das quase 375 mil pessoas que se identificaram como de origem portuguesa, 36,7% nasceram em Portugal (a vasta maioria nos Açores),  Desses 25,3% naturalizaram-se americanos, mas temos ainda 11,3% da comunidade que não se naturalizou.  No que concerne à língua de comunicação utilizada em casa, 83,3% dos nossos lares só falam inglês e apenas 16,7% das nossas famílias ainda falam português nas suas casas. 

            Dos homens recenseados com mais de 16 anos de idade, 51,1% estão casados; 34,6% estão solteiros; 1,4% separados; 2,5% viúvos e 10,3% divorciados.  No que concerne às mulheres, 38% solteiras; 47,7% casadas; 1,9% separadas, 9,2% viúvas e 13% divorciadas.  Quanto às profissões e vencimentos, das quase 375 mil pessoas de origem portuguesa na Califórnia,  73% trabalham na industria privada e por conta de outrem; 16,8% trabalham no sector publico, 9,8% trabalham por conta própria, 0,2% estão nas forças armadas (apenas 713 pessoas em todo o estado) e 5,5% estão desempregados (ou estavam em 2010).  Dos trabalhadores 39,2% têm um vencimento anual inferior a 50 mil dólares (desses 13,8 % menos de 24 mil dólares ao ano); 17,9% ganham entre 50 a 74 mil dólares por ano; 14,6% entre 75 e 99 mil dólares por ano; 16,7 por cento entre 100 a 140 mil dólares; 6,4% entre 150 a 199 mil dólares e 5,1% têm um vencimento anual superior a 200 mil dólares.  Dos apoios e reformas publicas, 27,8% das pessoas que se identificaram como de origem portuguesa, recebem a sua reforma do Social Security e 6,7% recebem apoio governamental, tal como food stamps.  

            No que concerne à distribuição da nossa comunidade, estamos, como se sabe, um pouco por todo o estado, por exemplo: 33,816 no condado de Alameda; 24, 670 no condado de Contra Costa; 11,221 no condado de Fresno; 6,056 no condado de Kings; 22, 001 no condado de Los Angeles; 12,031 no condado de Merced; 1,890 no condado de Napa; 11,110 no condado de orange; 7,268 no condado de Riverside; 23,575 no condado de Sacramento; 7,111 no condado de San Bernardino; 21,184 no condado de San Diego; 19, 096 no condado de San Joaquim, 6,069 no condado de San Luís Obispo; 28, 205 no condado de Santa Clara; 25, 212 no condado de Stanislaus; 7,894 no condado de Sonoma; 9,668 no condado de Tulare e 3,562 no condado de Humboldt, entre outros.   

            Em termos de cidades temos, segundo o Census de 2012, San Jose com 15,480; San Diego com 7,027; Los Banos 1,871; Santa Clara 3,654; Chino 1,174; Artesia 1,379; Tulare, 4,122; Hilmar 2,015; Antioch 1,998; Modesto 7,250; Stockton 2,568; Petaluma 1,755; Sacramento 7,182; Turlock 5,184; San Leandro 2,713; PismoBeach com 208, entre outras cidades. 

            Claro que números são números, mas destes números podem tirar-se muitas ilações.  É que, como dizia o tal autocolante, a matemática é radical.  O importante é termos em consideração quantos somos, segundo os números oficiais, e enquanto eles forem estes, e provavelmente a tendência é para diminuírem, acho que deveremos ter muito cuidado com o tal mágico milhão.  Pode ser um número bonito, redondo, bem sonante e até pode alimentar o nosso ego comunitário.  Porém, não é verdade e fica-nos mal andarmos a dizer que somos o que não somos, porque, e cá vem o cliché: a verdade está nos números e eles explicam-nos muito o que se passa nas nossas comunidades de origem portuguesa na Califórnia.



            Diniz Borges

            Junho de 2012