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2016/05/14

Vozes da Diáspora nos Açores
As comunidades de origem açoriana no continente norte-americano têm um riquíssimo mancial de órgãos da comunicação social.  Os jornais comunitários fazem parte das nossas vivências  desde o século XIX.  As rádios desde as primerias décadas do século XX. Os programas de televisão desde a década de 1970.  Todos têm contribuido para uma melhor ligação Açores-Diáspora.  As nossas comunidades não seriam as mesmas sem os seus órgãos da comunicação social.  O seu contributo, nas eras pré-internet foram marcantes.  Hoje, apesar das tecnologias avançadas, das redes sociais e da notícia dada a cada mínuto, a comunicação social da diáspora continua a ser um repositório importante da nossa história coletiva em terras do novo mundo e um elo de ligação à terra de origem ou à terra dos nossos pais, ou avós. 
Partindo desse princípio, a Direção Regional das Comunidades, do governo da Região Autónoma dos Açores, acaba de promover um encontro com os órgãos da comunicação da diáspora, realizado, ao longo de 5 dias, nas ilhas do Faial, Pico e São Jorge.  Cerca de 4 dúzias de representantes de vários orgãos da comunicação social estiveram presentes na região a fim de conhecerem-se melhor, conhecerem melhor os Açores e debaterem, com os OCS (orgãos da comunicação social) dos Açores as realidades atuais e alguns desafios do futuro.
Os Açores de hoje foram apresentados através de um conjunto de palestras feitas pelos diversos diretores e secretários regionais, assim como presidentes de institutos, seguidas de questões e comentários (mais os segundos do que os primeiros) sobre os temas delineados.  As politics estratégicas do atual governo para o mar, o ambiente, o turismo, os investimentos, a juventude e as comunidades fizeram parte do extenso programa.  Todos estes tópicos foram apresentados holisticamente, com uma visão gobal, alicerçada no passado mas com olhos postos no futuro.   As comunidades, o plano geral, assim como todo o apoio e toda a amalgama de serviços prestados aos emigrantes e imigrantes foi realçada com precisão e pertinência.  Não fosse o jovem Paulo Teves, o anfitrião deste encontro (rodeado de uma equipa extremamente profissional) um conhecedor da nossa Diáspora e um Diretor Regional com uma visão alargada das nossas comunidades, quer pela sua experiência como técnico na DRC desde 2003, quer pela sua capacidade de trabalho e a sua preocupação genuina com as nossas comunidades e a sua ligação aos Açores.  A cultura, um dos sectores mais empolgantes dos Açores, não fôssemos a terra de Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Francisco Lacerda, António DaCosta e tantos outros, ficou cingida a um roterio pelos museus dos Açores.  A apresentação sobre a cultura dos Açores teve, porém, um momento alto, emotivo e de genuína açorianidade: duas canções, que marcam a alma açoriana em todo o mundo, magistralmente interpretadas como o artista Manuel Costa as sabe interpretar; vivendo-as e evolvendo-nos afetivamente.  A cultura esteve ainda bem patente com a presença e a apresentação feita ao longo de dois dias na ilha do Pico pelo Manuel Serpa, que mais do que um ícone da ilha Montanha, é uma referência no panorama cultural e político das ilhas açorianas.
A presença do jovem Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores, na sessão de abertura, o qual sintetizou a relevância dos OCS da Diáspora na construção das nossas comunidades, foi importante para os presentes, que ao longo do encontro salientaram, nas várias conversas públicas, e de bastidores, o significado da presença de Vasco Cordeiro.  A mesma sessão foi marcada por uma comunicação, emotiva e bem fundamentada, eloquentemente apresentada pelo distinto jornalista José Lopes de Araújo.  Traçou as nossas ondas emigratórias, focou o relacionamento afetivo que se sente em todas as ilhas para com aqueles que um dia as deixaram, e os seus rebentos, assim como através de duas obras literárias, trasnformadas em séries televisivas por Zeca Medeiros, O Barco e o Sonho e Gente Feliz Com Lágrimas, magistralmente, salientou elementos fulcrais da idiossincracia açoriana e do peso que as Américas tiveram, e ainda têm, na construção da açorianidade.
O debate sobre os desafios que enfrentam (ou enfrentarão a médio prazo) a comunicação social da diáspora, sabiamente conduzido pelo critico literário Vambero Freitas (não fosse ele um profundo conhecedor e colaborador da nossa imprensa além arquipélago), e com a presença dos OCS da região, cingiu-se, por insistência dos representantes da nossa comunicação social da diáspora, a debater-se a língua portuguesa nas comunidades.  Alguns dirigentes dos OCS da região questionaram a abertura dos nossos media das comunidades em relação ao bilinguismo, à utilização do inglês e à ousadia de se explorar outros formatos e outros conceitos para estarmos mais próximos das novas gerações de açor-descendentes.  A nossa comunicação social, em algumas zonas mais do que outras, terá mesmo que se reinventar se quiser ser relevante para as novas gerações de açor-descendentes.  Tal como afirmei nesse debate, a Califórnia tem cerca de 385 mil pessoas que se identificaram no recenseamento de 2010 como sendo de origem portuguesa, mas menos de 60 mil disseram que usavam outra língua além do inglês, presume-se o português no seu quotidiano.  Daí que há uma amalgama de açor-descendentes que não têm acesso aos OCS em língua portuguesa.  Poderá ser diferente em outras regiões dos Estados Unidos e do Canadá, mas para aí se caminha.  Aliás, no voo de Boston para as Lajes na Terceira, a vasta maioria dos luso-descendentes presentes falava em inglês, e das 200 e tal alminhas no voo, nem duas dúzias entrou com passaporte português.
As comunidades de origem açoriana estão a mudar e é imperatico que nós que estamos na OCS da diáspora tenhamos a audácia de sairmos um pouco da nossa zona de comforto e saibamos incorporar serviços informativos e formativos para as novas gerações.  Como referenciei na sessão de encerramento deste encontro, cada comunidade é diferente, cada órgão da comunicação social conhece o seu mercado, a sua audiência e certamente que saberá reinventar-se para as novas comunidades que despontam um pouco por todo o continente norte-americano.  O que servirá para a Califórnia, será diferente para a Costa Leste, e sê-lo-á dissemelhante para o Canadá que tem a nossa emigração mais jovem.  Porém, é imperativo que cada um dos OCS reflita a sua comunidade, a sua realidade e esteja consciente que as comunidades de hoje não serão as comunidades de amanhã.  É que os Açores já compreenderam isso.
Este encontro trouxe ainda aos representantes de vários OCS o conhecimento mútuo.  Apesar da presença de alguns veteranos, o encontro teve ainda a presença de vários elementos (diria mesmo a maioria) que nunca tinha participado nestes eventos.  Essa troca de ideias, experiências, vivências, aspirações, sonhos, desejos e a camaradagem vivida, certamente que enriquecerá as comunidades e fortalecerá os tão desejados e necessários intercâmbios entre quantos trabalham nos OCS da diáspora.  É que tão importante como conhecer-se os Açores de hoje e todos os esforços que se faz para aumentar e aperfeiçoar o turismo para o nosso arquipélago de origem, um segmento cada vez mais importante para a melhoria económica das ilhas, é extremamente pertinente que as comunidades se conheçam mutuamente e partilhem mais experiências e mais recursos.  Este encontro, de uma forma menos formal, mas muito intensa, teve essa componente.

Está terminado o encontro.  Cada representante certamente que regressou à sua comunidade porque há jornais para imprimir, programas de rádio para produzir e programas de televisão a realizar.  Acredito que cada participante, ou a vasta maioria, já começou a refletir o encontro e a passar os testemunhos dos novos Açores às suas respetivas comunidades. É que tal como foi sugerido, os novos Açores, nas suas mais variadas vertentes, desde as novas formas de se fazer e promover o turismo, vindo dos mais variados destinos, à ainda importante visita da saudade e a da descoberta ou redescoberta das raízes, passam por uma miríade de conjunturas e filamentos que se unem, na cultura secular que define o povo destas ilhas e a sua ligação ao novo mundo.