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2012/12/15


A América Chora!

 

A presença das crianças cura a alma.

Provérbio Inglês

 


            Estou profundamente triste.  Tal como para a maioria dos americanos, e de muitas pessoas à volta do mundo, a sexta-feira, 14 de Dezembro, foi um dia visceralmente amargo.  Mais um massacre nos Estados Unidos.  Mais um acontecimento brutal.   Como pai e avô, o meu coração chora.  Como cidadão e professor preocupado com o progresso humano, mas particularmente o bem estar das crianças inocentes, a minha alma dói.  É que a tragédia na escola primária de Connecticut, é ainda mais um sinal, claro e inequívoco, da inerente violência que vivemos. quotidianamente, na sociedade americana.  Doí-me, muito mesmo, ter ainda mais uma vez, que refletir sobre a amalgama de medidas legislativas (ou falta delas) que nos levam a estas catástrofes, particularmente em torno da morte de 28 pessoas, 20 da quais miúdos inocentes.   Dói-me, que continuamos a extorquir o futuro às nossas crianças. 

            A horrenda carnificina no estado de Connecticut, não foi, infelizmente, uma ocorrência única.  Neste ano de 2012 aconteceram nos Estados Unidos 16 atos semelhantes, deixando 88 pessoas mortas e dezenas feridas.  Estas tragédias aconteceram, infelizmente, nos mais variados lugares, tais como: teatros, clubes, hospitais, restaurantes, centros comerciais, igrejas, tribunais, torneios de futebol e agora numa escola primária.  Até quando é que vamos tolerar esta violência? 

            Acabámos de ver 20 crianças, com 6, 7 e 8 anos, ceifadas da vida, inúmeras famílias destruídas, num ato extremamente selvagem.  As estatísticas mais recentes dizem-nos, que aqui nos EU, desde 2010,  um total de 2694 crianças e jovens foram abatidas a tiro.  Desde 1979, o total de 119,079 crianças e jovens foram mortos por armas de fogo neste país.  Este número, verdadeiramente apavorante, representa mais mortes do que os 53, 402 americanos que perderam a vida na segunda guerra mundial, os 47,434 na guerra do Vietname, 33,738 na guerra da Coreia e os 3,517 na guerra do Iraque.  E sejamos honestos, a morte de inocentes persistirá neste país, enquanto continuarmos a defender as armas em vez dos seres humanos. 

            No seu comovente discurso perante o país, o Presidente Barack Obama falou das várias tragédias que temos vivido nos últimos anos e disse que temos que nos "unir, e política à parte, trabalharmos para prevenir outras fatalidades semelhantes."  Penso que chegou o momento para o povo americano cessar este namoro constante com as armas.  Há que exigir da classe política um debate sério e legislação agressiva que enfrente esta epidemia que é a violência com armas de fogo.  Infelizmente, isso não tem acontecido e enquanto não houver leis sérias e fiscalização, repetir-se-ão estas calamidades. 

            É que a catástrofe na escola primária Sandy Hook, não foi, como se disse, um acontecimento solitário na história da violência com armas de fogo aqui nos Estados Unidos.  É, infelizmente, o resultado da nossa imoral negligência coletiva, da exacerbada presença de armas na sociedade estadunidense; de uma cultura popular que louva a violência e a ganância; de uma segunda emenda à constituição que é erroneamente interpretada; de um lóbi em Washington, pela parte do movimento das armas, que é quase imparável, porque possui milhões de dólares e sabe ferver os instintos mais rudimentares dos cidadãos menos preparados e menos informados e também pela inércia do Partido Democrático em colocar na ribalta legislação que impacte a realidade da violência com armas de fogo no seio da sociedade americana.  Sim, o Partido Democrático, porque o Partido Republicano há muito que dorme na mesma cama com o lóbi das armas nos Estados Unidos, o NRA-National Riffle Association.

            De hoje em diante o Natal na comunidade de Newtown, estado de Connecticut será diferente.  É quase inimaginável o sofrimento de tantos pais, avós, irmãos, tios e primos.  Para muitas famílias a inocência desta época desapareceu para sempre.  As celebrações natalícias foram substituídas pela dor e pelo luto.  Com o tempo, as feridas saram, como acontece em tudo na vida, mas a plangência e o sentimento de um profundo vazio, permanecerão nas vidas de cada família.  Porém, esse sentimento, será ainda mais amargurado se como sociedade não soubermos, ou não tivermos a coragem, de passar legislação que enfrente a violência.  Não podemos, nem devemos reagir como o fizemos em Colombine, em Virginia Tech ou mesmo em Aurora, ou seja: ficarmos tristes, chorarmos a dor e abraçarmos as nossas crianças.  Temos a obrigação de fazer mais.  Não podemos continuar a viver com estatísticas tão apavorantes como as que indicam que a violência provocada por armas de fogo nos EUA é 20 vezes superior á de qualquer outro dos dez países mais ricos do mundo.  Todas essas outras nações com leis muito mais restritas.  É assustador que de todas as crianças e jovens mortos no mundo por armas de fogo, 87% são americanos.

            É importante que choremos a dor, que abracemos os nossos filhos e netos, que rezemos e que tenhamos sentimentos de amargura e de raiva.  Mas não é menos importante tomarmos o futuro nas nossas mãos e utilizarmos todos os nossos recursos para assegurarmos que estes acontecimentos tenham menos ocorrência.  É que, segundo as estatísticas, infelizmente, durante as 72 horas seguintes ao massacre da escola primária de Newtown, outras tantas pessoas perderam as suas vidas em terras do tio Sam vitimas de armas de fogo. 

            Que estendamos, com solidariedade, os nossos corações às famílias vitimas, mas que, simultaneamente, ergamos as nossas vozes contra o perversidade das armas, porque se não o fizermos continuaremos a morrer, particularmente as nossas crianças e os nossos jovens continuarão a desaparecer.  Há que acordarmos da nossa letargia coletiva.  É que ao contrário das parvoíces que se diz por aí, particularmente na comunicação social conservadora e ecoadas pelos menos informados nas plataformas sociais, as armas matam.  Nos EUA matam 87 pessoas todos os dias.  Na fatídica sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012, mataram 20 crianças.

            A América chora.  Que as lágrimas se transformem em movimento aglutinador que provoquem mudanças na nossa sociedade para hajam menos tragédias desta natureza, menos mortes, menos prantos. As nossas crianças têm que viver numa América mais pacifica.  É que como disse algures Nelson Mandela: "devemos às nossas crianças, os nossos cidadãos mais vulneráveis, uma vida sem violência e sem medo".  
 
Fotos da Associated Press

2012/11/25


Uma Vitória para a Nova América

 

Nestes dias difíceis, nós americanos, temos que escolher

o caminho da justiça social...o caminho da fé, o caminho

da esperança e o caminho do amor para com o próximo.

Franklin D. Roosevelt

 

            Barack Obama ganhou as eleições.  Os americanos fizeram a sua escolha , optando por Barack Obama ficar na Casa Branca mais quatro anos.  Mais, escolheram mais nove Democratas para o Congresso do que na legislatura anterior e aumentaram a maioria que o mesmo partido tinha no Senado.  É mais do que óbvio, o cidadão americano, escolheu o caminho do progresso, a visão liberal e rejeitou o conservadorismo e a política obstrucionista que o Partido Republicano tem executado nos últimos quatro anos.  E mais uma vez, os jovens, as mulheres e os grupos étnicos minoritários, particularmente os afro-americanos e os hispânicos, votaram, maioritariamente, no Partido Democrático.  Mas as eleições já passaram.  Quatro semanas, no calendário político do pós-modernismo, é quase uma eternidade.  Daí que ilações é que podemos tirar deste último ato eleitoral.

            Primeiro, há que dizer-se que no dia 6 de Novembro o Presidente Obama não só ganhou reeleição, como a sua vitória, significou, o triunfo de um Nova América, a América do século XXI:  multirracial, multiétnica, mais consciente do mundo que a rodeia, mais global e acima de tudo, preparada para ultrapassar  vários séculos de tradições raciais, sexuais, conjugais e religiosas.   

            Barack Obama, o filho de um casal multirracial, nascido no Havai, com ligações a Kansas, Indonésia, Los Angeles, Quénia, Nova Iorque e Chicago, foi reeleito em grande parte porque não só representa, como soube dialogar, com esta Nova América, tal como o soube o Partido Democrático.  Soube conquistar uma coligação que incluiu uma grande percentagem dos trabalhadores fabris (45% dos trabalhadores anglo-saxónicos de Ohio); mais de 70% dos votos dos hispânicos (incluindo pela primeira vez, desde John Kennedy, a maioria do voto dos cubano-americanos da Florida); 96% do voto dos afro-americanos e maiorias substanciais do voto de vários outros grupos étnicos, incluindo os asiático-americanos.  

            A campanha de Barack Obama soube trabalhar, e conquistar, não só em termos raciais e étnicos, mas também em termos de estilo de vida.  Alguns analistas questionaram, e vários elementos do Partido Republicano, incluindo o antigo cérebro dos conservadores, Karl Rove (o grande perdedor destas eleições) satirizaram a campanha de Obama por estar focar em elementos demográficos específicos dentro da sociedade americana, incluindo os gays.  Enganaram-se com o seu epigrama porque a mensagem que a campanha do Presidente transmitiu foi uma mensagem sobre o futuro e não a do passado que os Republicanos insistem em expedir.  Aliás, a campanha de Barack Obama não fez mais do que ler, com atenção, os números do recenseamento de 2010, os quais indicam, claramente, que na primeira década do novo milénio a população de asiático-americanos cresceu 43,3%, a de afro-americanos 12,3%, a de latino-americanos 43% e da anglo-americanos apenas 5,7%.  Há dados que são significativos e que apesar dos Republicanos gastarem milhões dos seus amigos super-ricos não são omitidos da realidade americana, desta Nova América que os conservadores gostariam de ver apagada. 

            O Presidente Barack Obama foi reeleito com o apoio desta Nova América, como se disse, mas também porque falou a linguagem da Nova América onde assuntos tão pertinentes como: a reforma do sistema da saúde publica; medidas para regirem o Wall Street e o mundo da alta finança; reformulação das leis da emigração abrindo caminho para cerca de 14 milhões de clandestinos e suas famílias; a decisão que as mulheres devem ter sobre os seus próprios corpos, incluindo o uso medidas preventivas para a gravidez e a oportunidade de ganharem o mesmo salário pelo mesmo trabalho;  o direito que os cidadãos devem ter de casarem por civil com quem quiserem, incluindo pessoas do mesmo sexo, são alguns, entre uma miríade de conteúdos relevantes para os jovens e a maioria da Nova América.  

            Mais, esta eleição mostrou-nos ainda, que esta Nova América, já não acredita nos papões do passado.  Na Nova América é possível ganhar-se reeleição sem começar uma nova guerra.  Melhor, é possível ganhar-se reeleição acabando com as guerras e acabando com a exacerbada arrogância de que os Estados Unidos são o mundo.  Na Nova América, multirracial, multiétnica e multicultural é possível ganhar-se eleições sem denegrir no resto do mundo.  É possível ganhar-se eleições acreditando que somos um paceiro importante na construção de um mundo mais justo, mais pacifico, mais progressista.  Daí que a vitória de Barack Obama, foi mais do que uma vitória política, foi uma vitória para a verdadeira união americana, ou seja: nesta sociedade estamos todos juntos, somos um único povo, independentemente de onde vieram os nosso antepassados, de quem somos e de como vivemos as nossas vidas.

            Esta eleição também mostrou-nos, ainda mais uma vez, que os americanos, e particularmente os novos americanos, que são de todas as cores; de todos os credos religiosos, e alguns sem religião; de todos os estilos de vida; de todos os estados sociais e económicos, acreditam no poder dos governos e que embora não depositem toda a sua esperança no governo, acreditam, justamente, que os governos, nacionais, estaduais e locais, são parceiros importantes na construção de uma sociedade.   Esta foi ainda uma vitória que mais uma vez mostrou aos Republicanos que a sua hipocrisia de que a industria privada resolve todos os problemas e que os governos podem ser arrumados na prateleira do esquecimento, não funciona.  E digo hipocrisia porque quando estão no poder, como aconteceu com George W. Bush, aumentam os custos governamentais.  

            Foi, uma eleição que mostrou-nos que os americanos querem um governo eficaz e programas governamentais que ajudem aos mais carenciados da sociedade.  Foi uma vitória para os conceitos da verdadeira liberdade, da justiça social e da paz.  Foi ainda uma rejeição das propostas que tirariam à classe média para dar aos mais endinheirados do país ou àqueles que apesar de não terem esses montantes, pensam que já o têm, aos novos ricos, ou pior ainda, aos pseudo-ricos, porque são estes que têm dado algumas vitórias aos conservadores.  O conceito de se querer ser rico a todo o custo é repugnante.

            A Nova América falou e decidiu que queria construir uma sociedade mais equitativa e todos, mas mesmo todos, dentro e fora deste grande país, ganharemos com esta decisão.                 

           

2012/10/25


Os Editoriais e as Eleições Americanas

 

            Estamos à beira de mais um ato eleitoral nos Estados Unidos da América.  A 6 de Novembro os cidadãos americanos, os recenseados, entenda-se, elegerão o seu Presidente para os próximos quatro anos.  Simultaneamente escolherão a composição do próximo Congresso.  Esta é, indubitavelmente, mais uma eleição marcante na história da democracia anericana.  Mais uma vez os votantes traçarão o destino deste grande país.  A escolha não é muito complexa, ou votam para o seguimento que Barack Obama tem tentando dar ao país, retirando-o do abismo económico, ou dão a oportunidade a Mitt Romney de voltar às políticas arrogantes e economicamente desastrosas da administração de Bush II.   A opção marcará o futuro da nação e afetará o mundo.
            Com a campanha a chegar ao fim, uma campanha que dura há quase dois anos, a vasta maioria dos americanos já fez a sua escolha.  Existem os sempre peculiares, independentes, que, segundo as sondagens, ainda não decidiram, ou melhor, ainda não sabem para que lado está o futuro.  Porém, a vasta maioria já decidiu e em muitos estados, onde é permitido o voto por correspondência e o voto com antecedência, muitos já exerceram o seu direito, diria mesmo, a sua obrigação cívica.  E com o fim da campanha começam  a aparecer os tradicionais editorias de apoio dos vários jornais americanos.  O que raramente deixa de ser surpresa.  Vejamos alguns dos mais curiosos.

            O jornal Salt Lake Tribune, da cidade de Salt Lake City, no estado de Utah, onde fica a sede da igreja Mórmom, à qual pertence Mitt Romney,  acaba de pedir o voto em Barack Obama.  Este periódico, fundado por membros da igreja a que Romney pertence, e da qual foi bispo, é inequívoco, o Presidente Obama deve ser reeleito porque soube trabalhar para retirar o país do abismo económico em que nos encontrávamos há quatro anos.  Para os editores deste jornal, depois dos debates presidenciais, a política interna de Romney, "não possui qualquer detalhe credível, daí sujeitar-se à desconfiança." Não deixa de ser marcante que o maior jornal do estado de Utah, do centro da igreja de Romney, desconfia das suas políticas e apoia o atual Presidente porque, nas palavras dos editores: OB, tem mostrado habilidade como líder e Romney está um pouco por todo o lado sem definir-se quem é, e quem representa. 

            O Tampa Bay Times, na Florida, local onde o Partido republicano teve a sua convenção (congresso) também prefere o atual inquilino da Casa Branca.  Como refere este jornal, localizado num estado que tem alguma tradição republicana: "o Presidente Obama foi eleito há quatro anos em torno de uma grande esperança para o país. A aura foi-se e veio a realidade.  Apesar da recuperação não ser a desejada, muito mais dificultosa do que se imaginava, não há dúvidas que sem a liderança e as políticas de Barack Obama o país estaria muito pior.  Este não é o momento de voltarmos às políticas falhadas do passado. 

            Sem hesitação, o Tampa Bay Times apoia a recandidatura do Presidente Obama.  Mais, o jornal explica, ponto por ponto, porque é que apoia o Presidente, delineando as suas políticas, mencionado a inconsistência de Mitt Romney e a obstrução do Congresso controlado pelos Republicanos, cuja prioridade nos últimos dois anos, como se sabe, não foi legislar para bem do país mas sim ser travão constante a todas as políticas da Casa Branca.   Derrotar o atual Presidente, mesmo que tal percurso custasse, como tem custado, bastante caro à economia e à classe média americana, foi a tónica deste último Congresso.

            Uma das outras surpresas, particularmente para os conservadores, foi o apoio do jornal Denver Post, da cidade onde se realizou o primeiro debate presidencial.  O matutino mais influente do estado de Colorado afirmou que em 2008, no meio de duas guerras e de grandes incertezas económicas, havia apoiado um jovem Senador de Illinois e quatro anos mais tarde voltava a apoiar o agora Presidente Obama porque, "a guerra do Iraque acabou, a do Afeganistão está na sua fase final e a economia tem melhorado a passos vistos."   O jornal também refere, e em termos agressivos, a intransigência do Partido Republicano no Congresso.  Na realidade, se este Congresso tivesse aprovado a legislação American Jobs Act (legislação para promover empregos) hoje o desemprego estaria ainda mais baixo.  Porém, e ainda mais uma vez, os Republicanos preferiram embargar as políticas do Presidente m detrimento do bem nacional.  Há que pintar Barack Obama como incompetente.   E há que salvaguardar, a todo o custo, os baixos impostos dos mais endinheirados do país. 

            São vários os jornais que têm afirmado o seu apoio aos dois candidatos.  Dos mais conhecidos, Barack Obama teve o apoio do Los Angeles Times; do Washington Post; do Sacramento Bee (que não é propriamente um jornal liberal); do Charlote Observer (na Carolina do Sul); do Arizona Daily Star e do Philadelphia Inquirer, entre outros.  O candidato republicano e ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, teve o apoio do Detroit News; do Star-Telegram de Texas; do Las Vegas Review de Nevada e do New York Post, entre outros.  Na totalidade, e a uma semana das eleições, 18 grandes jornais americanos apoiaram Barack Obama e 15 Mitt Romeny.

            É do conhecimento geral que editorias de jornais não significam votos nas urnas,porém a divisão de opiniões, é mais uma indicação de que este ato eleitoral será disputado até ao último dia.  E isso é também mais uma elucidação de que muitos americanos não têm estado interligados à política americana ao longo dos últimos quatro anos.  É ainda indicativo que o dinheiro pode não comprar votos, mas confunde, muito mesmo os cidadãos.  É que, o ambiente deste ato eleitoral tem estado minado pelos montantes exorbitantes que os plutocratas americanos têm atirado para a campanha de Mitt Romney.  Na realidade, os plutocratas americanos notam as mudanças demográficas que acontecem nos EUA, e com cada dia que passa, ficam mais receosos de que terão de conviver com uma América mais justa, mais equitativa, mais multicultural.  E essa América, a verdadeira América, assusta-os.  Daí que gastam fortunas a persuadir o cidadão comum a votar contra os seus próprios interesses e inventam papões que o cidadão comum, infelizmente, ainda acredita.  É que só num ambiente de confusão e manipulação é que se pode entender a proximidade das sondagens.

            Esta eleição é, ainda mais uma vez, um espaço para os americanos refletirem sobre algo, que embora simples, tem afetado este país, e a sua história política desde os seus primeiros dias, ou seja: queremos um governo ao serviço de muitos ou um governo ao serviço de poucos.  

            Pessoalmente prefiro que sejamos mais abrangentes e que tenhamos um governo ao serviço dos 99%. 

2012/10/14


Eleições nos Açores---Reações nas Comunidades

Primeiro, e sobretudo, deve-se congratular o povo dos Açores por mais um ato eleitoral cheio de civismo, embora com abstenção muito alta.  Parabéns aos açorianos pela escolha.  Se tivesse nos Açores também votaria em Vasco Cordeiro e no novo PS.  É que o novo PS dará continuidade a algumas políticas que foram delineadas e implementadas pelo PS de Carlos César e terminará com outras que já tiveram o seu ciclo, como as comunidades.  É que Carlos César trouxe o PS da obscuridade a que estava condenado nos Açores e levou-o a sucessivas vitórias eleitorais e acredito que Vasco Cordeiro levá-lo-á a outros patamares. 

Todos sabemos que atual conjuntura internacional é difícil e que os próximos anos serão duros para os Açores, como o serão para o resto do mundo.  Mas o PS, com Vasco Cordeiro saberá ajudar os açorianos a enfrentar os desafios.

Nas comunidades, abundam os líderes, e os ativistas culturais, que se esconderam com medo de apoiar Vasco Cordeiro porque havia quem desse a vitória certa a Berta Cabral.  Nunca tive esse problema.  Toda a gente sabe que se estivesse nos Açores teria votado no PS e que sempre apoiei o candidato Vasco Cordeiro.  Embora, acredite, veementemente que o destino dos Açores deve estar nas mãos dos açorianos que lá residem.  Acho que as interferências das comunidades não são justificáveis.  E nem deram resultado.  É que o que menos faltou foram associações a darem a vitória à candidata Berta Cabral, muito antes das eleições.  O caso de ser apresentada, várias vezes, nas comunidades do continente norte-americano como a próxima Presidente dos Açores.  Não aconteceu!  Houve até associações que lhe deram medalhas prevendo que seria presidente e como tal, talvez Berta Cabral se lembrasse do mimo e talvez houvesse recompensa.  Devem estar dececionados.  Melhor, já devem estar a planear mimos para o Presidente eleito Vasco Cordeiro.  É que são assim, têm tanta consistência com Mitt Romney.

Mas os açorianos, aqueles que votaram, fizeram a sua escolha e independente de quem tivessem escolhido eu sempre apoiei Vasco Cordeiro. 

Espero que o novo Presidente (e esperaria o mesmo de Berta Cabral) tenha a coragem de fazer a mudança necessária nas comunidades. É que a metamorfose que acontece nas nossas comunidades é diária e seria importante para as comunidades, e penso que também para os Açores, que houvesse uma outra postura.  Um dos ponto mais positivos desta eleição é que, independentemente de quem ganhasse, estavam já programadas mudanças nas comunidades.  E isso é bom!

Parabéns para o PS, para Vasco Cordeiro, para os Açores e, porque não: para as comunidades.  Mais, chegou o momento dos líderes comunitários, aqueles que andaram encobertos (mais do que se desejaria), de virem à praça publica e congratular Vasco Cordeiro e o PS.  Não tenham medo, porque já há muito sabíamos que diriam, sem qualquer vergonha na cara, que apesar de terem andado a fazer mimos ao PSD e a bajular a candidata Berta Cabral com medalhas e prémios, sempre foram do PS e sempre apoiaram Vasco Cordeiro.
Já os estou a ver na sua cosntante demagogia.
Mas o importante é que o PS ganhou nos Açores e Barack Obama ganhará nos EUA.
   

2012/09/23


Os falhanços de Romney


            Os últimos dias não têm sido os melhores para o candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos.  Depois da subida nas sondagens , que o Presidente Barack Obama conseguiu após a convenção do Partido Democrático, Mitt Romney tem visto a sua popularidade a decrescer.   É que apesar de estar há cinco anos a concorrer para Presidente dos EUA, Romney é, indubitavelmente, um candidato com grandes lacunas.

            Primeiro, tentou marcar alguns pontos políticos à custa da morte de 4 diplomatas americanos na Líbia.   Combatido pela esquerda, e também pela direita, pela incoerência e o oportunismo político num momento trágico e de união nacional, Romney, mostrou, ainda mais uma vez que está pronto a assaltar tudo e todos, para conseguir ganhar a eleição.  Se é certa que muitos cidadãos comuns não ligaram grande importância aos comentários do candidato, não é menos certo que a comunicação social, incluindo a porta-voz dos Republicanos, Fox News, não lhe perdoou a falta de sentido de estado num momento difícil para a nação americana.   

            Mas como não há uma sem duas, poucos dias mais tarde, sai na comunicação social, pelas mãos da revista Mother Jones, um vídeo em que Romney acusa 47% dos americanos de se armarem em vítimas e de serem beneficiadores do governo, de não pagarem qualquer imposto, e daí que nunca votarão nele.  Isto depois de no mesmo vídeo ter dito que os "palestinianos não querem a paz" daí que a única solução é a América passar a bola e que se o seu pai fosse verdadeiramente mexicano, e não filho de mórmons exilados no México, teria a eleição no papo. 

            Dir-se-á, sem o mínimo exagero, que este vídeo foi devastador, até talvez fatal para a sua campanha.  E é bom relembrarmo-nos que o Sr. Romney está errado sobre quem não paga impostos, quem recebe benesses governamentais, e quem poderá ou não votar nele, ou quem pelo menos, tradicionalmente, vota nele e no seu partido.  Se é que ele ainda é republicano, ou melhor: se é que os republicanos ainda o querem. 

            A verdade é que mais de metade daqueles que apelidou de preguiçosos e de estarem à espera de auxilio governamental, têm emprego e pagam impostos nos seus salários, alguns muito pouco porque estão condenados a trabalharem, dia após dia, pelo indigno salário mínimo.   Cerca de 20% dos que considera chulos são reformados que recebem as penões do social security, para as quais contribuíram ao longo da sua vida e muitos desses, votantes no Partido Republicano.              Apenas 8% das famílias que vivem no seu trabalho não pagam impostos, ou porque têm vários estudantes a viverem em casa ou alguém desabilitado, ou porque estão desempregados.    A maior fatia dos benefícios governamentais vai para a terceira idade, em pagamentos do social security (a reforma nacional) ou em Medicare (o seguro de saúde para a terceira idade). 

            Porém, se quiséssemos equacionar os benefícios na carga fiscal dados pelos valores das hipotecas e pelo pagamento de apólices de seguro de doença, os mais endinheirados do país recebem mais apoio do que a classe trabalhadora ou os pobres.  Mas disso o Sr. Romeny não quer falar.  É que tal como nos relembrou a revista The Economist (que não é propriamente uma revista da esquerda) apenas 13% dos lares americanos recebem ajuda com os selos de comida (food stamps) e apenas 5% recebem auxílio no pagamento da sua habitação. 

            Ninguém poderá saber ao cernto o peso que estas afirmações vão ter na campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos, porém, não beneficiarão o Sr. Romney.  Mais, um pouco por todo o país, os candidatos republicanos a outros cargos nacionais, estaduais e regionais, particularmente aqueles envolvidos em campanhas mais renhidas, já se distanciaram de Romney.  A intelectualidade da direita também o tem afrontado.   Essa investida da direita, do seu próprio partido, aparece porque todas as sondagens começam a dar uma vantagem substancial a Barack Obama.

            Aliás, se Romney ganhar as eleições e conduzir o país como tem conduzido a sua campanha teríamos o abismo para esta sociedade.  Mas os americanos começam a perceber que um candidato cheio de fiascos só trará mais fragor ao país e ao mundo.        

2012/09/15


E lá se foi a KIGS

 

            Em 1937, ou seja 17 anos após José Vitorino ter começado (1920) o primeiro programa de rádio em língua portuguesa na Califórnia, na cidade de Stockton, batizado com o nome de Vasco da Gama, o casal Inácio e Margarida Santos começou em Tulare o primeiro programa de rádio em língua portuguesa nesta zona da Califórnia.  O programa Portugal teve grande sucesso e depois do casal Santos se aposentar, o programa continuou, com direção e locução de Joe Silva, que o modernizou e deu-lhe um cunho, e um estilo, bastante apelativo e de grande qualidade.  Tal como escreveu o Professor Doutor Eduardo Mayone Dias, no capitulo do seu livro A Presença Portuguesa na Califórnia, em 1939, tínhamos 13 programas de rádio em língua portuguesa no estado da Califórnia. E as cidades de Tulare/Hanford, e zonas circunvizinhas, tenham tido, ao longa da sua história de comunidades de origem portuguesa, uma longa e profícua relação com a rádio.  Desde 1937, portanto há 75 anos, que há rádio em português nesta zona.  Isto até há poucas semanas, quando a KIGS, a estação de rádio que transmitia em português 24 horas por dia, se silenciou. E agora a rádio será diferente.

            Cheguei aos Estados Unidos da América em Outubro de 1968.  Com dez anos de idade, o meu primeiro contacto com a nossa rádio foi em casa dos meus tios, José e Maria Toledo, (ambos já falecidos) quando sentados à mesa, após o jantar, ouvimos, em silencio total, o programa Ecos do Vale do casal Joaquim e Amélia Morisson.  Desde então que me tornei, particularmente na minha juventude, um ouvinte e fã da rádio em língua portuguesa neste centro/sul do Vale de São Joaquim.  Ouvi-as todos.  Tinha as minha preferências e anotava quase tudo do programa Ecos do Vale.  Os Morisson's eram os meus ídolos.  Tinham um português impecável, uma dicção imponente. 

            Com 18 anos, e com a irresponsabilidade e a irreverência de se ser jovem, atirei-me à rádio, e comecei, na estão KOAD de Lemoore, um programa de uma hora por semana, aos sábados de manhã, com o título: A Voz do Emigrante Português.  Daí passei para Tulare, para as estações KGEN e uns meses depois para a KCOK, onde o dito programa, passou a transmitir aos domingos entre as 6 e 7 da madrugada.  Com 20 anos de idade, e recém casado, a minha heroica e santa mulher, tinha a paciência de se levantar comigo, todos os domingos, às cinco da manhã, para irmos até à estação.  Eu fazia locução e ela atendia o telefone na secretaria.  Mais tarde veio a aventura da Rádio Aliança 80, em parceria com Joe Silva e Aires Madruga da Silva.  Um momento marcante na vida da rádio portuguesa desta zona, quer pela sua periodicidade (duas horas por dia), quer pela sua aposta numa programação baseada na informação e na formação.  Em 1982, entrei como um dos sócios (eramos dois) na rádio de circuito fechado: Rádio Clube Comunidade.  Um projeto único, ao qual dediquei quase dois anos da minha vida, e durante os quais, empobreci, economicamente, a minha família.  Em 1988, após uma ausência de cinco anos, apenas com alguma esporádica colaboração com a minha falecida, mas jamais esquecida amiga, Idalina Melo, no seu Aurora de Portugal, um dos programas mais populares aos domingos pela manhã, voltei à rádio.  Primeiro, com uma brincadeira semanal chamada, Rádio Lusíada.  Depois como um dos sócios-fundadores e o diretor de programação da KTPB.  Foi outra estação de circuito fechado, com a presença de quase todos os programadores independentes e trabalhando, no começo, 12 horas por dia, passando mais tarde para, 24 horas por dia.  Terminei essa aventura em Junho de 1993, quando decidi inscrever-me no ensino superior para fazer a minha formação académica, concluindo com um BA e um MA. 

            Porém, ainda no fim de 1993, cometi o erro de ser usado pela KIGS, fazendo, por uma mera gratificação mensal, um noticiário diário (segunda a sexta) com notícias locais ea duração de 8-10 minutos.  Digo erro, porque fui usado, pelos responsáveis, para criar ainda outra clivagem entre esta rádio e a KTPB.  É que em escassos meses foi me dito que não tinham dinheiro para me pagar.  Já se vê o truque!  Mais tarde, e por insistência do Padre Raul Marta, quando estava na mesa diretiva do Centro Português de Evangelização e Cultura fiz, mais uma vez de borla, e com a colaboração do Pde. Marta (nas conversas divergentes que tínhamos) um programa chamado Dimensão 2000.   Uma produção meramente cultural, que foi riscada da programação porque, como me foi dito: a comunidade não queria cultura.

            Daí que a rádio em língua portuguesa (como outras organizações comunitárias) tem sido uma componente importante da minha trajetória no estado da Califórnia.  A rádio fez parte intima da minha vida e, para bem, e para mal, fez parte da minha família durante muitos anos.  E nos últimos anos, particularmente na última década, tenho sido um observador atento da nossa rádio.  Com estas vivências, e com estas experiências, sinto-me, perfeitamente à vontade, para dissertar e comentar o estado da rádio em língua portuguesa nesta zona da Califórnia.  É que com o silencio da KIGS, que poderá ser apenas por pouco tempo, a comunidade local tem tido a rádio (ou a falta dela) como tema de conversa.  Culpa-se tudo e todos.  Atira-se pedras, mesmo quem tem telhados de vidro.  Diz-se que quem não ouve rádio local é porque não quer, porque está por aí na Internet.  Lamenta-se que já não haja rádio, mesmo por quem nunca a ouvia.  Alguns falam da falta de qualidade que tinha, outros de uma rádio, com base em Hanford/Visalia, ter virado as costas à comunidade local. Enfim, fala-se, até para não se estar calado, como nos diz o provérbio popular.

            O que é certo é que lá se foi a KIGS, e, repito, por quanto tempo ninguém o sabe.  O que é certo é que a comunidade, se quiser ouvir algo local, pelo menos com algumas notícias dos eventos da comunidade de Tulare e Hanford (e cidades limítrofes) terá que, ou ouvir os programas que estão na NET, ou ir às missas e aos clubes.  O que também é certo, e sejamos honestos, é que estas duas pequenas comunidades não têm o peso económico para manter uma rádio em português, numa antena livre, 24 horas por dia.  Nem tão pouco há ouvintes que se justifique semelhante investimento.

            A realidade é que a KIGS não tinha anúncios (ou tinha pouquíssimos) e os únicos que faziam alguns trocos eram os programadores independentes.  A realidade é que a comunidade de Tulare/Hanford (e quiçá muitas outras) está mais americana do que portuguesa, e conta-se, pelos dedos de uma mão, as pessoas com menos de 50 anos a ouvirem, religiosamente, todos os dias, e várias horas por dia, a rádio em língua portuguesa.  A comunidade está diferente e a rádio, não a soube, ou não a quis acompanhar.

            Compreendo o nosso gosto nostálgico pelo tempo que passou e que não volta.  Como humilde leitor do que se escreve sobre o nosso estado de alma, a nossa idiossincrasia lusitana, aceito este nosso êxtase pelo Sebastianismo.  Mas neste caso, tal como em tantos outros da nossa história, quer no nosso país da origem, quer nas nossas comunidades, D. Sebastião não voltará, nem resolverá os nossos dilemas.  A comunidade de Tulare/Hanford necessita, como já o fez em outros momentos da sua vida coletiva, de pegar, como dizem em termos taurinos: o touro pelos cornos, e baseada na sua realidade, tentar construir algo que possa servir as necessidades de termos uma voz, que esteja connosco, e que saiba servir os interesses da comunidade mais idosa e menos integrada e a mais nova e totalmente integrada. 

            Estou convicto que isso só se fará se as associações quiserem trabalhar em conjunto, e se a comunidade (com os seus líderes) quiser ser objetiva sobre si própria.      

2012/07/21

Eu, pecador, confesso que acredito nas Comunidades Portuguesas da Califórnia


Para criar inimigos, não é

necessário declarar guerra,

basta dizer o que se pensa.

Martin Luther King



            A epígrafe apareceu no facebook, como muitas coisas aparecem, algumas uteis e outras perfeitamente supérfluas e muitas completamente patéticas.  É assim o facebook, e em geral, as novas formas de se comunicar.  Porém, na sua totalidade são meios importantes e extremamente benéficos para a criação de um mundo e de comunidades em progresso.  Criei alguma empatia com a frase de Martin Luther King, um dos meus heróis do século vinte, porque através dos anos tenho, com as minhas humildes crónicas, e as minhas opiniões a favor do progresso humano e de uma comunidade de origem portuguesa mais integrada e mais aberta, criado, como é óbvio, alguns inimigos.  Mas diga-se que também tenho feito muitos amigos.  Porém, a verdade é que com uns e com outros ainda acredito na nossa comunidade.  Não tenho uma visão apocalíptica da mesma, nem tão pouco me comove a saudadesinha de um tempo já passado, que não foi assim tão bom.  Nem vejo a comunidade a morrer como apregoam vozes, quase sempre pertencentes a quem não se consegue ajustar às novas comunidades que despontam à nossa beira. 

            A minha história é análoga à de muita gente vinda dos Açores e que na Califórnia plantou raízes.  Vim dos Açores com 10 anos.  Meu pai sonhava com as "Califórnias perdidas de abundância" como nos diz Pedro da Silveira no seu emblemático poema.  Via o caso do meu avô materno (o meu grande amigo que me contava histórias do far west americano) que em 18 anos de América havia feito um bom pé de meia.  Numa era em que uma casa e alguns terrenos não dava para viver, meu pai, olhava para a América como um lugar onde se vinha, durante alguns anos, para se voltar com os trocos necessários para, como ele (meu pai) dizia: "endireitar a vida." Daí que, quando um tio meu, de visita aos Açores depois de meia dúzia de anos de América, numa viagem de saudade e de extravagancia, explica que a América é tudo o que dizem, e mais.  Que prefere estar na América a ordenhar vacas do que na Terceira a ver uma tourada (é verdade, disse-o, na minha frente), meu pai ficou pronto para dar o salto.   E o projeto de meia dúzia de anos tornou-se, tal como aconteceu com a maioria dos nossos emigrantes, numa vida em terras americanas.  Não só viveu na América desde os 38 anos, como foi a sepultar nesta terra com a idade de 72 anos.  Aqui está, para sempre.

            Desde os 10 anos que a minha vida tem sido a América, e na América as comunidades de origem portuguesa.  Nas escolas, o meu mundo foi sempre um mundo rodeado da nossa comunidade.  As várias escolas primárias e secundárias que frequentei eram o mundo americano salpicado com tonalidades açorianas.  É que, como meu pai trabalhava na agropecuária, uma industria cujos funcionários nas décadas de 1960 e 1970 eram maioritariamente emigrantes dos Açores, as escolas que frequentava estavam repletas de filhos de emigrantes ou de recém chegados como eu.   Depois veio o trabalho na ordenha das vacas, durante quase três anos, a passagem pelo comércio, o gosto pela rádio em língua portuguesa e daí o envolvimento direto na comunidade com a idade de 17 anos.  E tem sido na zona de Tulare, no centro-sul do vale de São Joaquim que tenho trabalhado, estudado, festejado, chorado, enfim, vivido a minha vida de ativista cultural dentro da comunidade e de humilde observador da mesma.  Mas viver na, e com a comunidade, não impede de estarmos presentes no mundo americano, de sermos plenos membros da sociedade onde vivemos, onde plantámos raízes e as regamos com o nosso trabalho, a nossa participação cívica e as nossas vivências culturais.  É o que fazem as nova gerações.  

            Em quatro décadas de América, rodeada de Açores por todos os lados, tenho visto as mudanças que as nossas comunidades de origem portuguesa têm vivido.  Tenho escrito sobre as mesmas.  É sabido que as comunidades de hoje não são as comunidades de ontem.  Não o podem ser.  Não o devem ser.  Mas não acredito que as comunidades estão envelhecidas, as pessoas sim, e demasiados dos nosso pseudo líderes é que estão velhos.   As comunidades têm a capacidade de se renovarem e vemos isso um pouco por toda a Califórnia.  Não serão as mesmas comunidades do fim do século XX e ainda bem, porque o mundo não é o mesmo, nem tão pouco a sociedade americana é a mesma.  Não se pode, nem se deve pensar as comunidades portuguesas da Califórnia, com os olhos postos no passado.  As comunidades fazem-se de formas múltiplas.  O mal de muitos dos nossos líderes é que ainda olham ao conceito de comunidades dentro de um círculo muito fechado, de um paradigma completamente ultrapassado.  Faz-se comunidade, e vive-se Portugal e os Açores na Califórnia, todos os dias, e nas mais variadas formas e nos mais variados lugares.  Basta abrir-se os olhos e querer ver que há outras formas de se ser e de se viver a comunidade muito além dos moldes tradicionais, e alguns, sobrepujados. 

            Daí, eu pecador, acreditar, veementemente, que as comunidades, apesar da falta de liderança, e de alguns (sejamos honestos) maus líderes que tivemos, e ainda temos, sobreviverão durante muitas décadas.  A metamorfose está aí.  Em  alguns casos estamos a aproveitá-la para a mudança, em outros isso não acontece, mas todas resistirão.  Acredito ainda que alguns dos dilemas que tivemos, e temos, foram provocados por esses líderes e pseudo-líderes.  Foi (ainda o é, infelizmente) mais do que comum que alguns líderes mantiveram lideranças autoritárias.  Diziam-se democratas mas não praticavam os princípios da democracia.  Houve lideres que fizeram obra interessante, mas ao saírem da chefia, da posição de presidente ou diretor, preferiram, ou abandonar por completo o projeto, ou escolher e apoiar substitutos sem qualificações e sem visão, porque essa foi (talvez ainda seja) uma forma de perpetuar a falsa aura com que se habituaram a viver nas comunidades e para alguns, mais importante, a imagem apócrifa que cultivaram em outras comunidades e até mesmo (muito mais importante para muitos) nos Açores e Portugal Continental.  Tivemos fundadores que depois afundaram (ou tentaram fazê-lo) as organizações que ajudaram a criar.  E diga-se, a bem da verdade, que tivemos excessivos líderes (será que ainda temos?) muito mais preocupados com o próximo jantar, a próxima visita efémera de um político, a próxima oportunidade de aparecerem no pódio com discursos circunstanciais e sem qualquer inquietude sobre a construção de uma comunidade dinâmica e multifacetada.  E houve também (talvez ainda haja) quem teve medo de homens e mulheres com outras visões, outra abertura, outra dinâmica, outra liberdade e até os tentasse punir com insinuações falsificadas e táticas perversas .  Conheço, perfeitamente, essas nojências, porque, como outras pessoas, vivi-as na pele. 

            Mas a comunidade é muito mais do que os nossos pseudo líderes querem ou gostariam que ela fosse.  Por cada pessoa que ainda diz Amem aos sotainas de ontem há outras que escolhem, vivem e trabalham consistentemente para a passagem, nas mais variadas vertentes, do nosso legado cultural no seio da modernidade do mundo estadunidense.  Peço desculpa a muitos dos nossos dirigentes que ainda estão no século XX, mas a comunidade de amanhã, que já está a construir-se hoje, mesmo que a queiram acorrentar com ideias do passado não se deixará controlar e fará comunidade, à sua maneira (e ainda bem), dentro do multiculturalismo americano. 

            Eu, pecador, acredito, que as novas comunidades, para desgosto de alguma gente, (assumida e auto-erguida nos seus altares com pés de barro), continuarão a viver a sua herança cultural com o seu passado histórico mas sem os apertos do pretérito.

           

            Diniz Borges

            Junho de 2012

2012/06/25

A Verdade dos Números


            Há dias, numa das minhas frequentes viagens a Fresno que fica a 45 minutos de minha casa), para gravar o programa de televisão que modero, os Portugueses no Vale (a celebrar o seu 23o aniversário) vi um autocolante, de certeza num carro de um professor de matemática, que dizia: a matemática é radical.  Também é cliché dizer-se que: a verdade está nos números.  E é de números que quero refletir, particularmente os números que falam de quantos somos no estado da Califórnia, um dos mais emblemáticos da união americana e onde a nossa presença portuguesa data o século XIX. 

            Um dos nossos números favoritos, é, indubitavelmente, o milhão.  Todo o mundo quer ser milionário.  E nós portugueses e luso-descendentes, não fugimos à regra.  Quando se pergunta por aí, quantos somos na Califórnia, é quase unanime que somos: um milhão.  E em cada estado da na união americana queremos ser um milhão, o que nos dava, nos Estados Unidos pelo menos uns cinco a seis milhões de portugueses e luso-descendentes.  Mas a realidade é diferente.  Se nos faz bem ao nosso ego coletivo sermos um milhão, que fiquemos com ele.  Porém, não são esses os números oficiais.  Esses sim é que contam.  São esses números que as entidades americanas se baseiam para distribuir recursos, dar apoios, reestruturar serviços, etc.  Daí achar boa ideia olharmos para os números e depois, claro que voltaremos ao nosso milhão.

            Permitam-me prefaciar esta olhadela pelos números estabelecendo a premissa de que é obvio que durante o recenseamento, o Census 2010, houve alguns luso descendentes que não se identificaram como tal, ou por não acharem importante, ou por não querem.  O que também se poderá acrescentar: se não se querem identificar como tal, serão?  É uma questão pertinente e discutível.  

            Segundo o relatório do governo americano somos, nos Estados Unidos, 1,405,900 portugueses e luso-descendentes, ou seja, representamos cerca de 4,7 da população do país.  Somos 374,875 no estado da Califórnia, seguidos por Massachusetts que tem 311,767.  E até estamos, como se sabe, no Hawaii, onde somos um pouco mais de 100 mil luso-descendentes.     

Das pessoas que se identificaram como sendo de origem portuguesa na Califórnia, 49,3% são homens e 50,7% são mulheres, daí que não faça sentido que as nossas instituições ainda estejam controlados pelos machos, com pouquíssimos cargos de importância a serem ocupados pelas senhoras.   A idade média das pessoas de origem portuguesa na Califórnia é 39,1 anos de idade, o que nos diz aquilo já há muito sabemos: somos uma comunidade envelhecida.  Quando há anos ia a eventos culturais da nossa comunidade (o que faço com regularidade há três décadas) e era o mais novo, achava piada.  Agora com 53 anos feitos e por vezes sou dos mais novos, já não tem piada nenhuma. 

            No campo da educação 12,1% das pessoas que se identificaram como portuguesas, têm apenas a instrução primária; 27,3 possuem o ensino secundário; 37% têm alguma instrução além do ensino secundário, desde curso técnico a algumas unidades universitárias; 16,1% possuem uma licenciatura (Bachelor's degree) e 6,8% possui mestrado ou doutoramento.  Daí que 87% da nossa comunidade concluiu o ensino secundário, ou seja um número muito acima da média dos hispânicos, por exemplo, e 22,9% tem cursos universitários, algo que, felizmente, tem mudado muito nos últimos anos. 

            Outros números interessantes e importantes para refletirmos quem somos neste grande estado norte-americano, referem-se por exemplo a quantos somos os que nascemos em Portugal e os que nasceram nos Estados Unidos e ainda se consideram portugueses.  Das quase 375 mil pessoas que se identificaram como de origem portuguesa, 36,7% nasceram em Portugal (a vasta maioria nos Açores),  Desses 25,3% naturalizaram-se americanos, mas temos ainda 11,3% da comunidade que não se naturalizou.  No que concerne à língua de comunicação utilizada em casa, 83,3% dos nossos lares só falam inglês e apenas 16,7% das nossas famílias ainda falam português nas suas casas. 

            Dos homens recenseados com mais de 16 anos de idade, 51,1% estão casados; 34,6% estão solteiros; 1,4% separados; 2,5% viúvos e 10,3% divorciados.  No que concerne às mulheres, 38% solteiras; 47,7% casadas; 1,9% separadas, 9,2% viúvas e 13% divorciadas.  Quanto às profissões e vencimentos, das quase 375 mil pessoas de origem portuguesa na Califórnia,  73% trabalham na industria privada e por conta de outrem; 16,8% trabalham no sector publico, 9,8% trabalham por conta própria, 0,2% estão nas forças armadas (apenas 713 pessoas em todo o estado) e 5,5% estão desempregados (ou estavam em 2010).  Dos trabalhadores 39,2% têm um vencimento anual inferior a 50 mil dólares (desses 13,8 % menos de 24 mil dólares ao ano); 17,9% ganham entre 50 a 74 mil dólares por ano; 14,6% entre 75 e 99 mil dólares por ano; 16,7 por cento entre 100 a 140 mil dólares; 6,4% entre 150 a 199 mil dólares e 5,1% têm um vencimento anual superior a 200 mil dólares.  Dos apoios e reformas publicas, 27,8% das pessoas que se identificaram como de origem portuguesa, recebem a sua reforma do Social Security e 6,7% recebem apoio governamental, tal como food stamps.  

            No que concerne à distribuição da nossa comunidade, estamos, como se sabe, um pouco por todo o estado, por exemplo: 33,816 no condado de Alameda; 24, 670 no condado de Contra Costa; 11,221 no condado de Fresno; 6,056 no condado de Kings; 22, 001 no condado de Los Angeles; 12,031 no condado de Merced; 1,890 no condado de Napa; 11,110 no condado de orange; 7,268 no condado de Riverside; 23,575 no condado de Sacramento; 7,111 no condado de San Bernardino; 21,184 no condado de San Diego; 19, 096 no condado de San Joaquim, 6,069 no condado de San Luís Obispo; 28, 205 no condado de Santa Clara; 25, 212 no condado de Stanislaus; 7,894 no condado de Sonoma; 9,668 no condado de Tulare e 3,562 no condado de Humboldt, entre outros.   

            Em termos de cidades temos, segundo o Census de 2012, San Jose com 15,480; San Diego com 7,027; Los Banos 1,871; Santa Clara 3,654; Chino 1,174; Artesia 1,379; Tulare, 4,122; Hilmar 2,015; Antioch 1,998; Modesto 7,250; Stockton 2,568; Petaluma 1,755; Sacramento 7,182; Turlock 5,184; San Leandro 2,713; PismoBeach com 208, entre outras cidades. 

            Claro que números são números, mas destes números podem tirar-se muitas ilações.  É que, como dizia o tal autocolante, a matemática é radical.  O importante é termos em consideração quantos somos, segundo os números oficiais, e enquanto eles forem estes, e provavelmente a tendência é para diminuírem, acho que deveremos ter muito cuidado com o tal mágico milhão.  Pode ser um número bonito, redondo, bem sonante e até pode alimentar o nosso ego comunitário.  Porém, não é verdade e fica-nos mal andarmos a dizer que somos o que não somos, porque, e cá vem o cliché: a verdade está nos números e eles explicam-nos muito o que se passa nas nossas comunidades de origem portuguesa na Califórnia.



            Diniz Borges

            Junho de 2012