2020/12/25

 

 

Natal à Distância

Há 120 anos, um jovem com 20 anos de idade, nascido numa ilha no meio do atlântico, criado na lavoura e numa família numerosa, um jovem que não sabia ler ou escrever, passou, pela primeira vez um Natal fora de casa.  Um Natal distante.  Depois de 20 natais em casa com a família e os amigos, este jovem da ilha Terceira, passou o Natal de 1900 num rancho da Califórnia, trabalhando do nascer ao por do sol, sem a família por perto e sem as novas tecnologias que hoje nos aproximam.  Quase sete décadas mais tarde, no ano de 1968, uma filha, genro, e dois netos desse jovem, acabados de chegar da mesma ilha e vivendo num rancho, não muito afastado do outro onde o pai, sogro e avô tinha vivido, passavam um natal em solidão, longe de tudo e de todos e doloroso porque ainda sem os luxos das comunicações da nova era. Porque sabiam ler e escrever, acompanhava-os as cartas que levavam semanas para atravessar o atlântico e a imensidão do continente americano. Os Natais à distância têm sido constantes na história do povo dos Açores, com partidas e repartidas pelos Brasis e pelas Américas.    

Hoje, com uma pandemia global, os açor-americanos, como a vasta maioria dos povos no mundo ocidental terão de viver (ou pelo menos deveriam viver) um natal à distância.  Um Natal separados, fisicamente, daqueles que nos são queridos, mesmo que vivam geograficamente próximos.  As entidades da saúde pública, nos dois grandes países da nossa emigração (a de há mais de um século e a das últimas quatro décadas do século XX), Canadá e Estados Unidos, pedem-nos distanciamento físico, sugerem que usemos as novas tecnologias, desde os Zooms aos Facetimes, para enviarmos os beijos e abraços natalícios.  Apelam que vivamos a noite da consoada, virtualmente. 



Não é a celebração que todos nós queremos neste, ou em qualquer Natal.  Mas os açorianos conhecem bem esta realidade.  Fomos embalados com despedidas e com Natais.  Como escreveu o poeta Almeida Firmino: sempre vazio o teu lugar à mesa e a tua voz cada vez mais distante.  Muitos sem cartas, outros com uma carta escrita semanas antes da época, e mais tarde, muito mais tarde, pelo telefone e pela magia das mensagens radiofónicas que as estações de rádio transmitiam, num passado não muito longínquo.  Mensagens que aqueciam os lares açorianos em ambos os lados do Atlântico.

O Natal de 2020, será diferente.  Para os açor-americanos e açor-canadianos, de todas as gerações, conscientes da sua história e do seu legado cultural, é apenas a repetição, adoçada com as novas plataformas da tecnologia, de tantos Natais vividos pelos seus antepassados.  A dramatização exibida em alguns segmentos da nossa Diáspora, só nos mostra que nem todos estão conscientes das vivências do nosso povo. 

Nenhuma família quer viver um Natal à distância!  A escolha determinará o nosso compromisso com a nossa família, porque como tem sido dito: é melhor este Natal sem a celebração em família, do que os futuros Natais sem um membro da família.  A escolha, e o comportamento no seio das famílias dos açor-descendentes, vivendo no continente norte-americano, também determina o grau de distanciamento com que estão da sua realidade histórica. 

Boas Festas, que mesmo vindo de longe, e com o distanciamento social deste Natal, contêm o sentimento único de uma saudade que nem sempre chora, mas que sempre fez parte dos Açores e dos primos da América.

 

Diniz Borges    

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